COMO MEDITAR

Você já parou para observar um pôr do Sol?

Consegue se lembrar daquele momento em que, de frente ao poente, com o laranjado dos raios fulgentes cortando o céu, você se encontrava abismado, perdido na beleza do que ocorria?

Não é possível tentar fazer com que esta emoção, este estado de júbilo nasça em seu ser por vontade própria, como resultado do “querer fazer”.

Mesmo que decida, agora mesmo, não seria capaz de reproduzir a energia sublime que se movimenta em seu interior quando observa um linda paisagem ou um pôr do Sol.

Se não for natural, sem esforço, não será verdadeiro.

Uma lagoa no meio da mata verde não precisa fazer nada para ser bela e cheia de paz.

A lagoa vive em meditação.

Mas, para você, é complicado entender isso. A sua mente, quando descobre que a meditação pode ser benéfica em algum ponto, logo quer saber como faze-la.

E este é o primeiro passo para mata-la.

É preciso compreender que não há a possibilidade de se fazer meditação. A meditação não é uma atividade, mas, sim, um estado.

Eu posso pegar um martelo e bater em um prego, mas eu não posso fazer meditação. Eu posso segurar um copo e enche-lo de água, mas não posso apertar um botão e iniciar a meditação.

Este estado de graça não acontecerá por intermédio de sua vontade ativa. Isso chega a ser até violento, feio.

Por que julga que deve haver a sua participação ativa neste processo divino? Se você interferir, vai apenas turvar as águas límpidas do seu Ser Interior.

A Luz tenta se fazer, mas você não deixa ela ser, pois “quer fazer as coisas acontecerem”. Pare, neste instante, e observe-se.

Sobre a sua respiração, quem a controla neste momento?

Certamente, não é você, se o fosse, não poderia se esquecer. Precisaria se lembrar a todo o momento que é preciso respirar para viver. Além disso, existe o período de sono, no qual não está consciente. Mas a respiração continua acontecendo, independente da sua própria vontade, do seu querer.

Da mesma forma que não pode fazer o respirar acontecer, não se pode fazer a meditação.

Este é um processo feminino, sútil, misterioso e belo. É preciso entrega, não ação. É necessário aceitação, não vontade.

Deste modo, sinta este chamado interior te pedindo para parar, por alguns instantes, e pare.

Somente isso.

Isso não quer dizer que você não fará nada. É claro que é preciso encontrar uma posição confortável. Também é necessário ouvir este sussurro que sinaliza-se em seu ser e segui-lo para onde quer que ele o leve.

Contudo, depois de encontrar uma postura agradável, apenas aprecie a paisagem. Observe o seu ser, as movimentações que se dão no seu interior, como se observasse as marés calmas do mar. Apenas veja a beleza do momento.

Você não precisa fazer nada. Você apenas observa e se sente bem.

Existe, neste observar cheio de aceitação, uma paz interior que começa a preencher o seu ser. A Energia de Profunda Paz se movimenta, sozinha, sem que você faça nada. Você apenas observa e se deleita.

O QUE É A MEDITAÇÃO

Para saber a meditação é preciso deixar de lado a mente. Porque ela vai tentar compreender como o “processo” funciona. Ela vai tentar reduzir o Despertar Interior em um processo matemático.

Mas não existe uma fórmula, não existe uma técnica lógica para a meditação.

Como se poderia reduzir ao entendimento da mente mundana o conhecimento de Deus?

Não é possível colocar um conhecimento profundo num recipiente raso. Então desista, desde já, de compreender a meditação. Porque você teria de compreende-la?

Tudo o que a mente rotula, julga “conhecer”, ela destrói. Olhar a queda d’água de uma cachoeira, com toda a beleza que o momento desperta, não enseja perguntas, nem pensamentos. O momento, a aura de satisfação e graça que envolve a cena, já basta.

A meditação não é nada que não seja o seu interior. Ela não é uma postura. Não é o ambiente. Você não precisa saber a posição de lótus. Existem pessoas que até passam 6 meses se alongando para conseguir fazer algumas posturas. Elas acreditam que, após isso, poderão meditar de verdade.

Mas isso tudo é bobagem.

Não se pode dizer que alguém que medita, no topo dos Himalaias, numa posição clássica do Oriente Antigo, com retratos de vários mestres e incensos ao seu redor, está mais conectado consigo mesmo do que aquele que medita num ônibus público, no meio do barulho de uma cidade grande.

É tudo uma questão interior, de encontro consigo.

Aquele que submergiu na Pura Consciência de sua própria fonte é como um feixe de luz. Onde quer que ele esteja, sentirá a fragrância doce do Supremo. Quem poderia julgar a profundidade de uma meditação somente pelas aparências?

O ambiente pode propiciar uma aura mais condizente com o silêncio, com a calma, mas só isso. Se não houver o encontro, estas coisas de nada valerão.

O que existe é uma Voz Interior que te pede o silêncio, em certos momentos, e que te conduz. Se for capaz de ouvi-la, se confiar nesta direção interior e se entregar para ela, o Divino ganhará espaço em você.

Só é necessário observar este movimento em sua essência. O resto acontecerá espontaneamente, justamente porque você não está interferindo.

Como se abrisse os braços e se deixasse levar pelas ondas de um rio, você se deixa levar pelo Infinito Interior. Sem esperar nada, sem controlar nada, apenas observando o movimentar da Energia que o percorre.

Pode ser que haja alguns pensamentos tentando atrapalha-lo, mas você apenas os percebe como se fossem pequenas pedras na bela paisagem contemplada. Neste observar distante, como se não houvesse um “eu”, a paz profunda começa a se intensificar e se fortificar.

O mistério tem os seus próprios caminhos, apenas aceite e observe. Você será levado onde nunca havia ido antes.

DESCOBRINDO A SUA MEDITAÇÃO

Encontre a sua meditação. Ela é a mais adequada para você. Se se sentir em paz, sereno, de ponta cabeça, então fique. Se for necessário testar várias posturas, várias abordagens, teste, mas não se prenda a nenhuma.

Elas nada mais são do que mecanismos para que você descubra a sua meditação. E você descobrirá apenas os passos iniciais, pois o restante não é mais com você. Você se senta, em silêncio, sem fazer nada e observa.

Pensamentos começarão a acontecer e você apenas observará, não se identificará com nada. Tudo se movimentará por meio de você, mas, logo, passará. Se for consistente e permanecer observando, com atenção em seu coração e nos caminhos que as energias percorrem, algo pode acontecer.

Quem poderia dizer?

É maravilhosa a sensação de não controlar, de não saber o que pode ocorrer.

Certo dia, no ano de 2011, eu senti que algo estranho estava acontecendo comigo. Sentia uma pontada no centro do meu coração. Eu estava no Norte do país, em Conceição do Araguaia, no Pará, vivendo uma situação complicada, cheio de coisas na cabeça e essa pontada não parava.

Ela justamente me dizia: – Pare! Eu sentia como se fosse um aviso que apitava, vez ou outra, em mim. E não pude me conter, não pude lutar contra. A intuição era muito forte. Ela me pedia para parar um pouco, em silêncio.

E me recordo que, antes deste evento, eu estava sentindo a necessidade de buscar mais informações sobre a meditação. Mas sempre que tentava meditar, não “conseguia” andar por caminhos proveitosos.

Entretanto, naquele dia, a mensagem foi clara. Eu não poderia dar as costas para este chamado. Senti que o Eu interior, no mais profundo sentido que esta palavra pode ter, estava tentando me puxar à realidade, num solavanco sobrenatural. E eu cedi.

A meditação começou a acontecer em mim. Um novo olhar surgiu de dentro para fora. Mas, no início, também cai na armadilha de tentar entender como poderia meditar. E a medida que mais eu tentava fazer a coisa acontecer, menos este estado de paz se mostrava.

Contudo, havia momentos em que estava cansado de buscar entender ou fazer a coisa acontecer. Nestes momentos, eu me sentava de qualquer jeito e procurava relaxar. E era justamente nestas ocasiões, em que a minha mente se desligava, em que o eu sumia, que algo de muito interessante acontecia.

Era como se um zumbido de silêncio ecoasse de algum lugar do meu ser. Eu era como uma caverna profunda e vazia. A sensação de encaixe e paz era tão prazerosa, que eu não consigo descrever a satisfação que me preenchia.

Liberte-se de tudo o que não é o seu ser interior. O ambiente externo pode ajudar, mas não há motivo para se tornar refém dele.

Quando descobrir a sua meditação, poderá entrar em estado de graça no mercado, no trânsito, na rua, na academia, em qualquer lugar. Não será necessário um mantra, incensos, posição confortável ou silêncio.

A meditação é uma sintonia, um movimento invisível. Se o seu terreno estiver preparado, ela pode surgir. Mas você não pode interferir. Ela acontece sozinha.

E talvez você esteja fazendo a sua caminhada do fim de tarde, quando, de repente, percebe que ela surgiu entre o vazio de suas passadas.

Ou talvez esteja lavando louças, quando, por alguns segundos, esquece-se de tudo, como se não fosse você quem as estivesse lavando. Em certos momentos, você vai simplesmente sumir e meditação se fará.