Dois poços profundos contendo águas negras como o silêncio interior. Assim são os seus olhos para mim, que neles mergulho sem o receio da volta. A fragrância do amor foi um convite do qual não pude fugir. E nestes olhos, cálidos e serenos, eu encontro algo de mim que há muito julgo ter perdido.

Eu não sei dizer bem do que se trata, mas sinto, no profundo do meu ser, uma torrente da qual me recordo apenas vagamente – talvez do momento antes da minha chegada aqui, neste mundo. Pois sempre me perguntei onde eu deveria estar 2 anos antes da minha mãe ter me dado à luz. Talvez você me faça lembrar deste lugar, do qual não podemos falar ao certo, mas que sentimos, inevitavelmente, nos momentos em que uma brisa nos toca o corpo ou que observamos o céu cheio de estrelas. Tudo o que você me traz vem deste reino, do invisível, das coisas que realmente têm significado.

Neste momento, meu filho, os meus olhos vacilam como um pequeno pote que é incubido de comportar às mares do Rio Ganges. Como não se emocionar, como não cair em prantos? Na verdade, estes escritos já deveriam estar prontos quando você contava 5 meses na barriga da sua “mamãe”, mas eu não fui capaz de escrevê-los naquele primeiro momento. Três meses depois, eu retornei, mas, ainda assim, uma estranha barreira, gigantesca, estava à minha frente. Meu filho, seu “papai” nunca imaginou que este amor seria assim, tão profundo como o é, a ponto de me deixar sem ação, sem um chão para sustentar o peso destes pés trepidantes. Mas, hoje, retorno, uma vez mais, sentindo que este é o momento certo para, como um seringueiro, extrair a seiva mais pura e profunda do meu peito.

Às vezes, sinto que você é um lembrete dos céus em meu caminho, me dizendo que existe um algo a mais além do que eu imaginava existir. Observá-lo, em teus 53cm, inebria mais a minha alma do que contemplar o firmamento que encadeia o universo. Encontro em ti, meu filho, respostas para todas as minhas indagações, para todo o meu inconformismo pueril. A tua presença me basta, o teu sorriso, ainda que, neste momento, seja mais um efeito do reflexo do que de uma vontade expressa, me ganha por completo. Em um dos meus textos, ousei dizer:“Eu senti a brisa que soprava pela janela e o pranto se fez em mim. Sócrates não me tocou deste modo. Nem mesmo Espinoza, com todo o seu pensamento transcendental e visionário pode penetrar tão profundamente em meu ser. E quanto a todos os filósofos, nenhum foi capaz de tanto. Simplesmente a brisa, que soprava cheia de mistério, esfarelou todos os conceitos e questionamentos existentes. Eu aceito. Eu me rendo.” Nele, quis demonstrar que as verdadeiras respostas – as mais profundas e significativas – não pertencem ao pensamento humano ou a nenhuma de suas construções, mas a algo do qual pouco se pode falar, do reino de onde tu viestes – do misterioso.

Me recordo de uma passagem, de quando era criança, em que fiquei, por um bom tempo, observando as estrelas do céu. Naquela noite fria, de alguma forma, eu buscava estabelecer, de modo mais firme, uma lembrança vaga que sentia em meu coração. Era como se a reminiscência fosse de um verde diluído, quase transparente, em minha consciência, e eu tentasse fortificá-la, precipitando-me cada vez mais no sentimento, com o intuito de torná-la verde-esmeralda. Talvez eu tenha passado a minha vida inteira tentando reforçar o tom desta emoção – para que pudesse compreendê-la – mas, ainda hoje, a sua tonalidade é clara, indefinida. Somente posso falar do seu efeito dentro do meu coração: uma saudade inexplicável que acomete o ser e que vem, em certos momentos da vida, de maneira mais forte ou mais suave – sem regras, sem avisos prévios.

Onde você estava, meu filho, 1 ano antes de descobrirmos a gravidez da sua “mamãe”? Talvez estivesse próximo de uma daquelas estrelas que eu observava, absorto, nas minhas inspirações de menino. Pois que algumas pessoas dizem que todos os acontecimentos estão predestinados, que não temos todo o livre-arbítrio que julgamos ter. Outras, dizem que tudo é obra do acaso e que até a formação do universo se deu de maneira casual. No fundo do meu ser, sinto que já nos conhecíamos, antes mesmo da minha chegada por estas paragens. Aqui, o meu olhar reencontra o teu e os laços são formados, novamente, por vias diferentes das originais. Mas o amor é o mesmo e, assim como a seiva vivifica diversas flores de um mesmo jardim, o nosso se expressa pelos caminhos que a vida permite. Destino ou casualidade, eu aceito as condições como nunca antes o fiz em toda a minha vida.